2. Hunter S. Thompson e o Jornalismo Gonzo
Em meados da década de 60, no ápice da exploração dessa nova maneira de se fazer jornalismo, surgiu um jornalista free-lancer do estado de Kentucky que levou às últimas conseqüências o espírito livre do novo estilo. Hunter Stockton Thompson passou a ser conhecido por sua escrita exagerada, sua total imersão à notícia e por sua peculiar maneira de, quase sem querer, acabar virando ele próprio o centro de tudo que cobria. Foi tido até a sua morte, em 2005, como o criador e principal representante de um estilo que recebeu o nome de Gonzo Journalism, o jornalismo Gonzo. Christine Othitis, pesquisadora canadense da obra de Thompson, reconhece também o estilo sob outros nomes, como jornalismo fora-da-lei, jornalismo alternativo e cubismo literário. O estilo Gonzo está intimamente ligado a seu inventor. Para entender suas origens, é necessário conhecer a biografia do próprio autor.
Nascido em 1937 na cidade americana de Louisville, Kentucky, Hunter Thompson sempre teve uma personalidade de liderança, que atraía pessoas. Com pais alcoólatras e sempre alheio a regras, passou a conviver na adolescência com os mais diversos grupos de pessoas, desde os atletas a escritores, músicos e até mesmo políticos. Participou de jornais pequenos, do bairro e da escola, mas iniciou sua carreia como jornalista na época em que ingressou na Aeronáutica americana, cobrindo esportes para o jornal da base local, o Command Courier. Seu comportamento avesso e sua desobediência às ordens de superiores fizeram com que logo se desligasse da organização, passando a viver como jornalista free-lancer em jornais e revistas, ora em Nova York, ora em São Francisco.
Antes de escrever sua primeira grande reportagem, Hunter viajou para a América Latina como correspondente de pequenas matérias para diferentes veículos, como El Sportivo e National Observer, cobrindo eventos incomuns em países como Porto Rico, Colômbia e mesmo no Brasil. No Rio de Janeiro, conta sobre um jornalista – provavelmente ele mesmo – que presenciou um tiroteio em uma boate em Copacabana, em 1963. De volta aos Estados Unidos, em meados de 1964, comprou uma propriedade em Woody Creek, Colorado, apelidada de Old Farm, Velha Fazenda, onde morou por toda a vida, até sua morte, em 2005.
Na mesma época, com o estouro do New Journalism, Thompson também viu no estilo uma oportunidade de fazer algo diferente e a curiosidade sobre uma famosa gangue de motociclistas fez com que Hunter tivesse seu nome reconhecido nacionalmente. Os Hell’s Angels, famosos por aterrorizarem cidades da Califórnia, destruindo, bebendo e perturbando tudo que vissem pela frente, passaram a conviver com um jornalista tão estranho quanto eles, que os acompanhava dia e noite. Aos poucos Hunter se tornou amigo dos chefes da gangue, participando de festas, viajando em bandos com sua própria motocicleta e trazendo as mais diferentes pessoas para o convívio de sua casa, participando inclusive de atividades ilegais que envolviam a gangue.
Dezoito meses de convivência depois, foi lançado Hell’s Angels: The Strange and Terrible Saga of the Outlaw Motorcycle Gangs (1966), – reeditado mais de 35 vezes – no Brasil simplificado para Hell’s Angels: Medo e Delírio sobre duas rodas. A marca “medo e delírio” iria acompanhá-lo por quase toda sua biografia. Fugindo das notícias sensacionalistas que eram lançadas sobre a gangue, Thompson deu seu relato sem querer desmoralizar seus membros, mas mostrando como era a vida de pessoas tão à margem da sociedade. Foi nesse período junto aos Angels que Thompson inseriu em sua vida, de modo mais agressivo, o uso de entorpecentes, característica que seria transpassada e refletida em seus textos ao longo de sua trajetória.
Nessa obra inaugural, originalmente publicada em artigos semanais pela revista The Nation, Hunter conta como chegou a confundir o seu próprio papel ao imergir tão profundamente na situação:
“No meio do Verão, eu tinha me envolvido tanto com o ambiente dos desordeiros que não tinha mais certeza se estava fazendo uma pesquisa sobre os Hells Angel’s ou se estava, aos poucos, entrando para o grupo” (Thompson, 1967, p. 57)
“Hells Angels”, o livro, é tido como o embrião do que mais tarde viria a se tornar o estilo Gonzo de se fazer jornalismo. Seria o único de sua bibliografia a ser citado, inclusive por Tom Wolfe, como uma obra representante do New Journalism. Sobre isso, Wolfe diz:
“Em 1966 começavam a surgir feitos de reportagem extraordinários, espetaculares. Ali estava uma raça de jornalistas que, de alguma forma, tinha capacidade de penetrar em qualquer ambiente, até nas sociedades mais fechadas, e lutar pela vida. (…) Mas, nesse ano, a Medalha de Honra de melhor de todos os escritores freelances foi para um jornalista chamado Hunter Thompson, que rodou com os Hells Angels durante dezoito meses – como repórter e não como membro, o que teria sido mais seguro – a fim de escrever Hells Angels: Medo e delírio sobre duas rodas”. (Wolfe, 2004, p. 46).
A pesquisadora Othitis concorda com a visão de Wolfe sobre essa primeira obra: “Hell’s Angels provavelmente é o único livro de Thompson que poderia ser chamado de new journalism, (…) é o primeiro – e único – livro no qual Hunter mantém um estilo controlado de se expressar, no sentido de ‘escritura não-gonzo’” (1994).
O escritor americano Louis Menand comenta como Hell’s Angels afetou a vida de Thompson:
“Esse livro trouxe a Thompson toda a atenção da mídia popular e ele foi rápido ao abraçar essa oportunidade. Mas de algum modo ele achou seu lugar na mídia alternativa, como Ramparts, Scanlan’s Monthly e a revista Rolling Stone. Mas foi no jornal Scanlan’s que em 1970 ele publicou “The Kentucky Derby is Decadent and Depraved”[1] e o jornalismo gonzo nasceu.”[2]
A palavra Gonzo é lida, segundo o dicionário Michaelis, como algo de natureza subjetiva. Jean Carroll, autora da biografia “Hunter”, de 1993, conta que a palavra Gonzo foi agregada ao estilo por um amigo e também jornalista, Bill Cardoso. Ambos se comunicavam por cartas e certa vez Cardoso teria lido um artigo do amigo e comentado “Não sei o que você está fazendo, mas você transformou tudo. É totalmente gonzo” (Othitis apud Carroll, 1994). O título entrou para a história e, nesse artigo inaugural do estilo, o autor narra, através de um olhar peculiar, uma famosa corrida de cavalos americana (The Kentucky Derby) e, sobretudo, faz uma ácida crítica ao estilo de vida da população local. Nesse artigo, Thompson narra também seu primeiro encontro com Ralph Steadman, cuja relação com o autor e seu estilo serão discutidos mais adiante nesse trabalho. O artigo é datado de junho de 1970, e publicado recentemente no Brasil em nova edição da coletânea “The Great Shark Hunt”, ou “A grande caçada aos Tubarões: histórias estranhas de um tempo estranho”, que reúne seus melhores artigos publicados em diversos veículos. Sobre o artigo, Wolfe diz:
“O resultado foi um estilo maníaco, cheio de adrenalina em primeira pessoa, onde as próprias emoções de Thompson dominavam a história continuamente. Essa história no Kentucky Derby deu a ele a chance de dominar seu estilo e levá-lo a sua maior obra, Medo e Delírio em Las Vegas” (Wolfe, 1973, p. 195)[3]
A palavra Gonzo tornou-se marca e referência de toda a obra de Thompson, mesmo sem ter uma explicação ou tradução literal para seu uso. Suas obras posteriores, como Medo e Delírio em Las Vegas, Screw Jack, Rum, entre outros, trouxeram características específicas em comum que fizeram com que o estilo fosse considerado por muitos à parte do movimento New Journalism.
Para Christine Otithis, existem sete características principais que definem esse estilo. Essas características e suas relações com o Novo Jornalismo serão analisadas ao longo dos próximos capítulos. Para o próprio Thompson, ser gonzo era necessitar de um extremo talento jornalístico, ter a visão de um artista ou fotógrafo e os colhões de um grande ator, já que a imersão no fato era essencial para o resultado de sua obra.
Depois do reconhecimento de um novo estilo através de “The Kentucky Derby…”, Thompson aceita um convite da revista Sports Illustrated para cobrir outra corrida, desta vez de motos, chamada Mint 400, no deserto de Nevada. Em companhia de um amigo advogado e com dinheiro dado pelo editor da revista, Thompson segue em direção a Las Vegas e o produto final acaba sendo uma análise sobre a vida em torno dos cassinos, assim como todas as oportunidades de jogos, drogas e aventuras que a cidade propõe. A revista acaba recusando o artigo, afinal, ele não tinha nada da corrida, mas o mesmo ganhou destaque em duas edições da prestigiada revista Rolling Stone, em novembro de 1971.
Thompson foi publicado sob o pseudônimo Raul Duke e a história também foi transformada em livro, sob o título de Fear and Loathing in Las Vegas: A Savage Journey to the Heart of the American Dream. “Medo e Delirio em Las Vegas” se tornaria um clássico cult e inspiraria dois filmes: o primeiro, de 1980, traz o comediante Bill Murray no papel de Thompson e em 1998 Johnny Depp faz interpretação adorada pela crítica e aplaudida pelo jornalista em pessoa.
Durante todo o percurso de sua vida, ele continuou com um estilo crítico e ácido, escrevendo para veículos como Playboy, Rolling Stone, San Francisco Chronicle, Esquire, Vanity Fair, entre outros. Terminou sua vida escrevendo, para o site do canal esportivo ESPN, uma coluna intitulada “Rey Rube!”. Em fevereiro de 2005, suicidou-se em sua propriedade em Colorado, com um tiro na cabeça, deixando esposa e um filho, Juan.
Durante sua carreira como jornalista, Thompson se revelou como um personagem. Utilizava pseudônimos em seus textos, vestia-se sempre da mesma maneira, usava sempre os mesmos pares de óculos escuros em todos os lugares que estivesse, aparecia sempre fumando cigarros em uma piteira, tinha fala mole, sotaque arrastado e um pouco caipira. Criou para si uma persona, uma aparência que o permitia interagir e mostrar-se à sociedade com mais facilidade. Tornou-se ele próprio uma caricatura, assim como seus textos se tornaram caricaturas da sociedade americana, exagerando, expondo ao máximo suas fraquezas. Para Edvaldo Pereira Lima, essa foi a maior contribuição particular de Thompson, por ter uma “felina e impiedosa leitura crítica da hipocrisia da sociedade norte-americana, desmascarando instituições e comportamentos, expondo patologias. No texto, um estilo repleto de subjetividades que implode de vez a herança da objetividade jornalística” (Lima, 2005).
Essa força em desrespeitar regras e desobedecer a padrões fez com que logo Hunter se tornasse um ícone da contracultura[4]. Ele afrontava tabus, mostrando como o campo jornalístico ainda era dominado por tímidos clichês (Dickstein, 1977 p.133). A fim de se diferenciar ainda mais, Thompson ia a campo acompanhado não de um fotógrafo, mas de um ilustrador. O inglês Ralph Steadman ajudou a concretizar o estilo Gonzo através de seus desenhos que se encaixavam com perfeição aos textos. Nenhum fotógrafo, por melhor que fosse, conseguiria enxergar da maneira como Thompson enxergava os acontecimentos à sua volta. Steadman conseguia traduzir os acontecimentos em figuras exageradas e nada combinaria melhor com o estilo de Hunter. Essa relação de imagem e texto gonzo ainda será discutida mais profundamente nos capítulos que se seguem, assim como as características do estilo e suas relações com o New Journalism. O escritor americano Louis Menand comenta: “Thompson pertenceu a uma época em que os jornalistas acreditavam que a falta de medo, o humor e a honestidade fariam a diferença. E é tão triste lembrar que um tempo com tanta fé já provavelmente passou”. (Menand, 2005)
[1] Texto em apêndice.
[2] Site da revista The New Yorker, 7 de Março de 2005. Tradução Livre.
[3] Tradução livre.
[4] “O termo Contracultura foi inventado pela imprensa norte-americana, nos anos 60, para designar um conjunto de manifestações culturais novas que floresceram, não só nos Estados Unidos, como em vários países, especialmente na Europa e, embora com menor intensidade, na América Latina. Na verdade, é um termo adequado porque uma das características básicas do fenômeno é o fato de se opor, de diferentes maneiras, à cultura vigente e oficializada pelas principais instituições das sociedades do Ocidente”. (Maciel apud Pereira, 1983, p. 13)





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