Introdução

Introdução

Em meados dos anos 60, a imprensa norte-americana começou a dar destaque a uma série de textos que não se encaixavam na maneira pura e simples de noticiar um fato. As redações, que antes possuíam apenas dois tipos de jornalistas – aquele que buscava os “furos” e aquele que escrevia longas reportagens (Wolfe, 1973, p. 13) -, nutriam agora um novo tipo de profissional, voltado para a vivência do fato em si e usando uma abordagem literária.

Essa transformação na maneira de se fazer jornalismo acabou por criar uma expressão que representava esse estilo e seus profissionais, o New Journalism – O Novo Jornalismo, considerado uma vertente do já existente Jornalismo Literário. Não se tratava de um movimento, mas sim de uma “reforma” no padrão clássico de jornalismo, que parecia não atrair mais os leitores.

Os chamados ‘novos jornalistas’ procuravam passar ao leitor toda uma imagem do fato, para que ele se sentisse parte integrante daquela cena. A descrição de ambientes, o registro de diálogos completos, a procura por esmiuçar o personagem central da reportagem, eram características que tornavam o texto jornalístico-literário atrativo para muitos leitores e davam visibilidade a esses novos profissionais. Era como uma descoberta de que talvez o jornalismo pudesse ser lido como um romance, (Wolfe, 1973, p. 19), o que acabaria com a previsibilidade do jornalismo “bege”, ou tradicional, guiado por recursos como lide e pirâmide invertida.  No capítulo 1 deste trabalho, analisaremos o New Journalism e seus principais representantes, por meio de exemplos e características já determinadas por autores conceituados.

Entre esses jornalistas, um americano de Kentucky chamado Hunter Stockton  Thompson chamou a atenção por criar reportagens que, ao mesmo tempo que possuíam esse estilo literário, eram mal vistas por usar humor negro, atacar o chamado “American Way of Life”, muitas vezes repudiando a moral e colocando em xeque a verdade. A esse estilo específico foi dado o nome de Jornalismo Gonzo, e seu criador e principal representante atuou em diversos veículos – como as revistas National Observer, The New York Times Magazine, Rolling Stone – até a sua morte, em 2005.

O capítulo 2 deste trabalho será inteiro dedicado ao estudo das características do estilo Gonzo, bem como à elaboração de uma pequena biografia do autor. Uma vez que o estilo Gonzo está intimamente ligado à vida intima e pessoal do autor, faz-se necessária a história de seu autor e sua trajetória profissional. Também dedicamos esse capítulo a exemplificar as características do estilo através de trechos de textos variados.

A obra de Hunter Thompson é o objeto de estudo desse trabalho, que busca analisar o estilo Gonzo de se fazer jornalismo, desde suas origens até a comparação com outros tipos de arte. O capítulo 3 busca aproximar o estilo com a caricatura e a crônica, que possuem características em comum com o Gonzo.

Um dos maiores motivos para a realização deste trabalho é a observação de que dificilmente o estilo Gonzo é abordado em escolas e universidades. No entanto, ele tem sua importância quando observamos a época em que surgiu, envolto pelo movimento de contracultura, até os dias atuais (Thompson escreveu até 2005). Principalmente no Brasil, a obra de Thompson foi pouco explorada e pouco divulgada. Recentemente a Editora Conrad resolveu republicar algumas de suas obras, porém, ainda assim, é difícil acharmos bibliografia sobre o assunto, bem como revistas e jornais com textos relevantes sobre o mesmo.

Nos Estados Unidos, entretanto, a cultura gonzo é amplamente divulgada até hoje. A obra mais conhecida de Thompson – “Medo e Delírio em Las Vegas” – foi duas vezes retratada em filmes recentes e seus livros até hoje possuem edições atualizadas. Em Wood Creek, Colorado, onde Thompson morava, foi criada a Fundação Hunter Thompson, dedicada a ensinar e ajudar pessoas que vivem em sistema carcerário. Há também monumentos e museus em sua homenagem. Este trabalho busca também desmistificar uma possível imagem negativa do estilo, tentando mostrar que o não-convencional também pode servir como objeto de estudo acadêmico.

~ por camilaalam em 06/13/2009.

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