1.1. Definições e características
Mesmo sem a intenção de se tornar um estilo característico ou um movimento em si, foi assim que o New Journalism passou a ser encarado. Desde seu inicio até os dias atuais, diversos autores passaram a estudá-lo e contextualizá-lo, comparando-o com o estilo “convencional” de se fazer jornalismo, que deixa pouca margem de autonomia para o repórter, sempre pautado pelo lead, ou lide – ou seja, pelas questões O Quê?, Quem?, Como?, Onde?, Quando? e Por quê? – deixando pouco espaço para experimentações de estilo. (Lima, 2003) Morris Dickstein relembra outra estrutura clássica do jornalismo que segue em vigor até os dias atuais: “A melhor matéria era aquela que capturava e distribuía o primeiro fato principal seguido por outros de ordem invariável – a famosa ‘pirâmide invertida’ – o segundo principal, o terceiro e assim por diante” [1]. (1977, p.129).
O já existente Jornalismo Literário, praticado com prestígio por Ernest Hemingway, Joseph Mitchell e Lilian Ross, entre outros, teve suas técnicas de captação e redação provenientes da literatura aperfeiçoadas e renovadas. No Jornalismo Literário o foco eram as pessoas que davam vida aos acontecimentos e o narrador fazia do texto uma espécie de individualização da história, através do seu ponto de vista pessoal, sem deixar de lado a veracidade do fato.
Nanami Sato, doutora em Educação, docente e pesquisadora da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, diz: “O caráter ficcional é uma das marcas distintivas mais importantes da literatura; a fidelidade factual, do jornalismo” (2001, p. 79). Ela complementa: “Das narrativas jornalísticas espera-se, afinal, que sejam factuais, de sua linguagem, que seja contida (…)” (2001, p. 81). Segundo Edvaldo Pereira Lima, os novos jornalistas aperfeiçoaram essas técnicas já existentes no jornalismo literário e introduziram pelo menos duas novas. Por exemplo:
“Tom Wolfe trouxe para o jornalismo a técnica do fluxo de consciência, enquanto Norman Mailler criou a técnica do ponto de vista autobiográfico em terceira pessoa. Assim, o new journalism configura-se como uma versão própria e renovadora do jornalismo literário”.
(2003)
O fenômeno não foi somente norte-americano. O escritor, jornalista e professor universitário argentino Tomás Eloy Martinez aponta, no artigo “Periodismo y Narracíon: Desafios para el Siglo XXI”, outros três autores pioneiros na América Latina: o cubano José Martí, o mexicano Manuel Gutierrez Najera, e o nicaragüense Rubén Darío. Já no século XX, Gabriel Garcia Márquez se destacava como jornalista antes mesmo de se consagrar como autor de ficção. Na Espanha, Rosa Montero, Vasquez Montalbán, Manuel Vicent, entre outros praticavam o chamado periodismo informativo de creación. No Brasil, a Revista Realidade e o Jornal da Tarde publicavam grandes reportagens ao estilo new journalism. Nesse trabalho, porém, nos restringiremos apenas a autores norte-americanos, assim como suas obras e publicações nas décadas de 60 e 70.
Como já citado anteriormente, o New Journalism distingue-se principalmente por quatro características: a construção cena a cena, o diálogo, o ponto de vista da terceira pessoa e o detalhamento do status de vida. Iremos a seguir explicar e exemplificar cada uma delas.
Para os novos jornalistas, não bastava uma descrição de lugar, de horário, de imagens passageiras. Com esse recurso, todo o texto era moldado através da descrição minuciosa dos acontecimentos em questão. Como um travelling nas filmagens de cinema, o jornalista passeava pela notícia, contanto caso a caso, literalmente cena a cena, de toda sua experiência de captação da notícia, “recorrendo o mínimo possível à mera narrativa histórica” (Wolfe, 2004, p.54). Cada cena acontecida no momento da captação da notícia era detalhada como em um roteiro de cinema. Esse recurso fazia com que o leitor tivesse melhor noção da notícia como um todo, conhecendo todas suas passagens detalhadamente, como neste trecho de “Música para Camaleões”, de Truman Capote:
“(…) Estamos sentados no terraço de sua casa, uma casa arejada e elegante, que parece toda feita de renda de madeira: Lembra certas casas antigas de New Orleans. Estamos tomando chá de hortelã gelado, levemente temperado com absinto. Três camaleões verdes perseguem uns aos outros pelo terraço; um deles faz uma pausa aos pés de Madame, exibindo a língua bífida, e ela comenta: ‘Camaleões. Criaturas excepcionais. A maneira como mudam de cor. (…) Madame passara toda a tarde me contando muitas coisas curiosas. Como à noite seu fardim ficava cheio de imensas mariposas noturnas. (…)
Com essas palavras, Madame ingressa em seu fresco salão caribenho, um aposento sombreado com ventiladores de teto que giram devagar, e se instala num piano bem afinado. Continuo sentado na varanda, onde consigo observar essa mulher sofisticada e idosa, produto de sangues variados. Ela começa a tocar uma sonata de Mozart.
Aos poucos os camaleões se acumularam; uma dúzia, mais uma dúzia, na maioria verdes, alguns escarlates, outros lilás. Trotavam através da varanda e se aglomeravam à porta do salão, uma platéia sensível e atenta à musica executada. E que parou, porque, de repente, minha anfitriã se levantou e bateu o pé, ao que os camaleões se espalharam como fagulhas desprendidas por uma estrela que explodisse.” (2004, p. 22).
Observe como o narrador desliza sua história parte por parte, desde sua acomodação no terraço, até os movimentos da anfitriã, a música, os camaleões, como se o leitor pudesse se envolver e sentir o momento da mesma maneira que o autor sentiu. Para Tom Wolfe, essa era a oportunidade que o jornalista tinha para desenvolver o que ele chama de “extraordinário” em reportagens: poder testemunhar de fato as cenas das vidas das outras pessoas no exato momento em que ocorriam e conseguir, através de toda essa descrição, inserir o leitor em seu contexto.
Para enfatizar ainda mais o conceito de construção cena a cena, é indispensável utilizar um recurso que torna a narrativa ainda mais real: a transcrição de diálogos. Quando um repórter transmite na matéria um diálogo que teve com seu entrevistado, ou um diálogo observado em uma cena, o leitor rapidamente se aproxima do “personagem”. Suas características, sua personalidade, são rapidamente definidas e estabelecidas pelo leitor, assim que ele entra em contato com seu modo de falar, como se o já conhecesse, como uma maneira de o entender melhor. Além disso, o uso de diálogos deixa a leitura mais agradável, facilitando a identificação do leitor com o fato, ou a segurança de sua atenção. Para Wolfe, esse é o melhor recurso para fazer o leitor entrar em contato com o personagem em questão na reportagem, com eficácia e realismo. Ele aponta ainda o desprezo dos romancistas e literários pelo diálogo. Para ele, ao invés de usarem essa técnica a rigor, ela era deixada de lado ou utilizada incorretamente.
“Os jornalistas trabalhavam o diálogo em sua mais plena e mais completamente reveladora forma, no mesmo momento em que os romancistas o eliminavam, usando o diálogo de maneiras cada vez mais crípticas, estranhas e curiosamente abstratas” (2004, p. 54).
Um dos mais famosos jornalistas a utilizar esse recurso era Truman Capote. Sem precisar de gravador e com uma memória de dar inveja em seus companheiros, Capote era capaz de “decorar” horas de diálogo, sem esquecer nenhuma passagem, e errando pouquíssimas vezes. Certa vez pediu a um amigo que fizesse um teste: gravou uma longa conversa, e sem ouvi-la novamente, transcreveu-a num papel. Ao voltar a fita e combinar o resultado, perceberam que havia 90% de exatidão no texto. Esse recurso, mesmo sem toda a habilidade de Capote, era vastamente utilizado pelos novos jornalistas. Neste tópico usaremos um exemplo de diálogo retirado da obra jornalística do próprio Tom Wolfe. No capítulo “O último herói americano” do livro The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby [O aerodinâmico bebê floco de tangerina cor de caramelo, em tradução livre], ele descreve uma conversa causal entre o personagem Junior, um piloto de corridas stock-car, e um jornalista esportivo que está no local:
“Meninos sempre se aproximam para pedir autógrafos a Junior, outros simplesmente ficam olhando, e um good old boy novo vem até ele, deve ter uns trezes anos, e Junior diz: ‘Este menino aqui caça guaxinim junto comigo’.
Um jornalista esportivo está ali perto e diz: ‘Como é que vocês atiram no guaxinim?’
‘A gente não dá tiro. Os cachorros assustam eles para a árvore, e aí a gente derruba eles da árvore e os cachorros pegam.’
‘Derruba da árvore?’
‘É. Este menino aqui consegue derrubar melhor que qualquer um. A gente sai de noite com os cachorros, e, assim que sentem o cheiro, eles começam a latir. Eles vão correndo na frente da gente, e, quando espantam o guaxinim para a árvore, a gente sabe, pelo jeito do latido. Começam a latir grosso para o guaxinim – como é, eu não sei, mas a gente escuta uma vez e não esquece. Aí, a gente manda um good old boy subir para derrubar, o bicho pula, e os cachorros pegam’
‘E como o menino derruba o guaxinim da árvore?’
‘Ah, ele sobre lá até o galho onde está o bicho e sacode até o guaxinim pular.’
(…)
‘Que tipo de cachorro é esse?’
‘Guaxininzeiro, ué. Preto-e-bege, chamam às vezes. É criado para isso. Se o pai e a mãe não forem guaxininzeiros, ele também não é não. Quando a gente consegue um, tem de treinar. Tem de prender o guaxinim, vivo, botar num cercado, amarrar com uma corda numa estaca, e aí coloca o cachorro ali, e ele tem de brigar com o bicho. Às vezes, o cachorro não é de briga de jeito nenhum e não serve pra nada.’ (…) “(2004, p. 103)
Percebe-se pelo tom da linguagem que Junior é um personagem simples, de criação tranqüila e rural, apesar de ser um grande corredor e ídolo de muitos. A importância do diálogo se mostra, na prática, importante exatamente para isso. Através dele o leitor tem noção de como é o personagem, como ele se porta, qual é seu background. É importante notar que esse diálogo foi observado por Wolfe, e não teve participação nenhuma do autor. É característica essencial do new journalist saber observar tudo a sua volta e guardar sensações, falas, acontecimentos em geral, porque esses atributos tornam a leitura ainda mais agradável ao leitor.
- O Ponto de Vista da Terceira Pessoa
Dificilmente o jornalismo convencional apresenta seus personagens de forma pessoal ou tenta passar ao leitor os seus sentimentos em ocasião. Esse recurso passou a ser utilizado pelos novos jornalistas e foi chamado de “ponto de vista da terceira pessoa”, ou seja, o jornalista tentava transmitir ao leitor exatamente o que o personagem da matéria estaria pensando, sentindo, ou querendo dizer. Visto que é impossível ler pensamentos – “o jornalista só pode levar o leitor para dentro da cabeça de um personagem – ele próprio” – Wolfe (2004, p. 54), os profissionais atingiam essa finalidade através de muita conversa e entrevista, até a proximidade com o personagem ser capaz de fazer com que o jornalista saiba exatamente o que ele quer dizer. E na maioria das vezes, eles acertam. Wolfe dá essa dica e mostra como muitos de seus parceiros de imprensa faziam o mesmo:
“Como pode um jornalista, escrevendo não-ficção, penetrar acuradamente os pensamentos de outra pessoa? A resposta mostrou-se deslumbrantemente simples: entreviste-o sobre seus sentimentos e emoções, junto com o resto. Foi o que eu fiz em O teste ácido do refresco elétrico, o que John Sack fez em ‘M’ e o que Gay Talese fez em ‘Honra teu pai’”. (2004, p. 55).
Na prática, mostraremos um trecho de “Frank Sinatra está resfriado”, de Gay Talese:
“Sinatra estava trabalhando em um filme que ele mesmo não gostava, ele mal podia esperar que acabasse. Ele estava cansado de toda publicidade em torno de seu namoro com Mia Farrow, de 20 anos, que não estava à vista esta noite, ele estava bravo que um documentário sobre a sua vida da CBS, a ser exibido em duas semanas, estava entrando demais em sua privacidade, até mesmo especulando sobre sua suposta amizade com os líderes da máfia; ele estava preocupado com sua apresentação de uma hora na NBC, com o show intitulado Sinatra – A Man and his Music, no qual iria cantar dezoito musicas com uma voz que, nesse momento, apenas a algumas noites da estréia, estava fraca e incerta. Sinatra estava doente. (…) Frank Sinatra está resfriado”.[2] (1993, p. 173)
Observe como o jornalista consegue passar os sentimentos do personagem sem que ele precise se manifestar. O ponto de vista em terceira pessoa aparece nesse trecho quando Talese mostra como Frank Sinatra se sentia, o que ele pensava, sem necessariamente inserir palavras atribuídas a ele. Essa característica só é possível com a extrema convivência com o personagem, seja ela recheada de entrevistas ou não. Esse convívio com a cena, com as pessoas, com o ambiente, faz com que o fluxo em terceira pessoa seja facilmente demonstrado através das palavras do autor, mas como se fossem palavras do personagem em questão.
Esse recurso faz com que o leitor consiga observar a cena, mesmo sem tê-la pessoalmente presenciado. Wolfe diz que era como “criar a ilusão de olhar a ação pelos olhos de alguém que estava de fato na cena e envolvido nela, em vez de um narrador bege”. (2004, p. 33)
- Detalhamento do status de vida
Para Wolfe, esse era o recurso menos compreendido por leitores e estudiosos. O status de vida era muitas vezes encarado como uma mera descrição, mas iria muito além disso. Através do detalhamento do status de vida, o leitor era capaz de compreender cada detalhe da vida do(s) personagem(ns) em questão. Detalhes que iriam desde o ambiente onde ele mora, como seus móveis se ajeitam, como ele caminha, como ele come, se veste, conversa; enfim, tudo. Observemos o trecho a seguir:
“Um sino toca, um sino de mesa de jantar, pelo som, do tipo com que se chama a criada da cozinha, e a festa de transfere do salão para a sala de estar. Felicia abre o caminho, Felicia e um homenzinho cinzento, de cabelo cinzento, rosto cinzento, terno cinzento e um par de costeletas modernas mas cinzentas. (…)
Felicia estava no extremo da sala de estar, tentando fazer todos entrarem.
‘Lenny!’ disse ela. ‘Diga para o pessoal entrar!’ Lenny ainda estava nos fundos da sala de estar, perto do salão. ‘Pessoal!’, disse Lenny, ‘Para cá!’
Na sala, a maior parte da mobília, sofás, poltronas, mesinhas, cadeiras, tudo foi afastado para junto das paredes, e trinta ou quarenta cadeiras dobráveis foram colocadas no centro do recinto. É uma sala grande, larga, com paredes pintadas de amarelo-chinês, sancas brancas, arandelas, espelhos com aparadores, um retrato de Felicia deitada numa espreguiçadeira, e nem extremo, onde Felicia estava parada, dois pianos de cauda. (…)” (Wolfe, 2004, p. 163-164)
O status de vida mostrava hábitos, costumes, maneiras de tratar o próximo, olhares, posturas, detalhes que traziam ao texto realismo, uma espécie de estudo dos ambientes e da sociedade. São detalhes simbólicos que mostram a posição que o personagem ocupa, ou que gostaria de ocupar na esfera social. Segundo Wolfe, empilhando esses detalhes tão impiedosamente e, ao mesmo tempo, tão meticulosamente, o jornalista dispara lembranças que o leitor possui em seu próprio status de vida. (2004, p. 56)
[1] Tradução livre
[2] Tradução Livre.
Publicado em 1.1. Definições e características
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